sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

terça-feira, 23 de janeiro de 2007

Truque (para mais tarde recordar)

Não dizer que não, mas também nunca dizer que sim.
"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que, por admiração, se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."

Clarice Lispector

Babel


Soberbo. Não quero saber de críticas(os). Soberbo. Uma história que toca quatro continentes (apesar de a história do Japão estar ali um bocado inserida a martelo, ainda que singular na sua abordagem contrastante do mundo de surdos-mudos no universo bulicioso de Tóquio). Por outro lado, conta com as participações do Gael García Bernal e do Brad Pitt. Mais valias significativas.

Existir

E eu, que sempre gostei tanto do meu amigo Kierkegaard, nunca imaginei ver-me envolvida num tão complexo enredo quanto o de Soren e Regina.
Aos dezassete decidiu que não era mulher de família.
Aos vinte e sete percebeu que não era mulher de família.

Selecção natural das espécies

Era uma miúda tão cheia de si quanto cautelosa. Nunca se dignava apaixonar-se senão por quem já estava apaixonado por ela. E tinha sempre sorte, a estúpida.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

Memória selectiva

Li V.S. Naipaul, o Nobel, não gostei. Mesmo nada. Não tem nada a ver com o facto de o livro me ter sido ofertado por paixão antiga. E é singular: é que nem do título me consigo lembrar. Não gostei. Mesmo nada. E não tem nada a ver com.

If

O poema que Rudyard Kipling escreveu para o filho John, que foi gozado na escola por causa disso.


If you can keep your head when all about you
Are losing theirs and blaming it on you;
If you can trust yourself when all men doubt you,
But make allowance for their doubting too:
If you can wait and not be tired by waiting,
Or, being lied about, don't deal in lies,
Or being hated don't give way to hating,
And yet don't look too good, nor talk too wise;

If you can dream - and not make dreams your master;
If you can think - and not make thoughts your aim,
If you can meet with Triumph and Disaster
And treat those two impostors just the same:
If you can bear to hear the truth you've spoken
Twisted by knaves to make a trap for fools,
Or watch the things you gave your life to, broken,
And stoop and build'em up with worn-out tools;

If you can make one heap of all your winnings
And risk it on one turn of pitch-and-toss,
And lose, and start again at your beginnings,
And never breathe a word about your loss:
If you can force your heart and nerve and sinew
To serve your turn long after they are gone,
And so hold on when there is nothing in you
Except the Will which says to them: "Hold on!"

If you can talk with crowds and keep your virtue,
Or walk with Kings - nor lose the common touch,
If neither foes nor loving friends can hurt you,
If all men count with you, but none too much:
If you can fill the unforgiving minute
With sixty seconds' worth of distance run,
Yours is the Earth and everything that's in it,
And - which is more - you'll be a Man, my son!

A. L. A.

Gosto de Lobo Antunes. Muito. Mas só em cartas ou crónicas.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

Geração Gato

Uns posts abaixo e aí estava eu a falar do fenómeno Gato Fedorento. Um humor excelente. Sarcástico, culto, intemporal, inteligente, non sense, desconcertante, desconstrutivo, saudavelmente desconstrutivo, corrosivo. E, no entantanto, vagamente familiar.
Porque conheço vários "Gatos" da minha idade. Quem não conhece? Mais ou menos as mesmas origens, mais ou menos os mesmos percursos. Porque é uma questão geracional, este humor. Dos vinte e tais, trinta anos. Dos filhos e sucedâneos de 74.
A pequena diferença entre os "Gatos" do nosso dia a dia, do nosso grupo de amigos, etc., e os outros está na dramatização e mediatização de uns e a esfera privada e informal em que se mantêm os outros.

Sintomatologia do stress

Preciso de escadear o cabelo. Preciso de escadear o cabelo. Preciso de escadear o cabelo. Preciso de escadear o cabelo. Preciso de escadear o cabelo. Preciso de escadear o cabelo. Preciso de escadear o cabelo. Preciso de escadear o cabelo. Preciso de escadear o cabelo. Preciso de escadear o cabelo. Preciso de escadear o cabelo. Preciso de escadear o cabelo. Preciso de perder o medo de cabeleireiras e escadear este obscenamente comprido cabelo.

Pequenos prazeres

Folhear um livro, num sítio improvável.
Numa hora imprevista.
Gostar. Bastante.
Perscrutar o preço nas prateleiras, não encontrar.
Olhar de novo para a capa e ter a agradável surpresa de ser um Preço Azul. Nem hesitar em metê-lo dentro do cesto. Com capa dobrada e tudo.
Pequenas coisas (pequenos prazeres) que nos enchem o dia. Não a vida, mas o dia, que é muito mais importante.
Tudo, condensado num livrinho de capa preta, das edições ASA, colecção (precisamente) "Pequenos Prazeres".

Mai nada!!

Em defesa do modelo de beleza vigente:

Em Espanha, depois do fumo e da sesta, querem proibir a magreza das mulheres. Sou, como é óbvio, contra. Gosto de mulheres magras. De preferência, muito magras. Se possível, majestaticamente magras e curvilíneas. Contradição? Nem por isso. As curvas não têm nada a ver com o peso. Existem ou não existem. São um dote natural. Uma mulher sinuosa, magra ou gorda, é sempre uma mulher sinuosa. A magreza apenas realça ainda mais as curvas que já ostenta. Ao contrário, uma mulher sem curvas, por mais que amplie a massa corporal, está condenada a viver sem curvas. A gordura nunca se acomoda onde faz falta. A sua distribuição pelo corpo é dos fenómenos mais grosseiros da natureza. A gordura é infame. Assalta o pescoço, os braços, a cintura, os tornozelos, os pés. Deixa a mulher pesada e (afinal) sem forma.Por mais que tentem impingir às pessoas que o que interessa é o interior, a verdade é esta: em primeiro lugar, mulher magra e curvilínea; em segundo, exequo, mulher generosa e curvilínea e mulher magra e aplanada; último lugar: mulher gorda.


A gerência da Feira das Vaidades agradece esta tomada de posição corajosa e viril.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007










Como muito bem é recordado aqui, foi em 16 de Janeiro (1969) que o jovem estudante Jan Palach se imolou pelo fogo, como forma de protesto ao cancelamento das reformas "primaveris" de Dubcek pelas forças soviéticas. Naquela praça de Praga, de cujo nome já não me lembro. Mas o memorial em honra de dois jovens permanece na lembrança.

Grandes portugueses

Foi com alguma estupefacção que assisti (mais por curiosidade enfadada que por interesse real) aos "Grandes Portugueses" da RTP 1, no último domingo.
Entre os dez mais votados estão o Marquês de Pombal e Salazar.
Dois estadistas, mas ainda assim, dois déspotas do pior.
Eu não deixo de acreditar que isto é sintomático. E está bom de ver que o nosso legado é muito atávico. Está bom de ver que, nisto da democracia, e de valores como a cidadania, ainda há muito para o português aprender.
Enfim, temos o país que somos, temos o país que merecemos.

Mea culpa

Uma das coisas de que mais me arrependo no passado recente foi o facto de, em 2005, eu e duas amigas termos encontrado o quarteto do Gato Fedorento (num bar, após um dos seus espectáculos ao vivo, ao qual nós tínhamos assistido), e de não ter aproveitado para pedir um autógrafo do Ricardo (não para mim, mas para outra grande fã). Em vez disso, decidi gozar um bocado com eles. Bom, não foi com todos, foi só com um em particular. E não foi muito, foi só um pouquinho.
Desculpem lá qualquer coisa.
(Por outro lado, tenho aqui no telemóvel uma certa foto que me poderá render algum dinheiro daqui a uns anos.)

segunda-feira, 15 de janeiro de 2007

Saldos

Apesar de prosaica, há uma consideração algo inevitável nas deambulações de alguns de nós numa loja em saldos. Na demanda árida e solitária do amor, como nos saldos, aquilo que menos queremos ouvir são as sentenciais frases:

- Já não há.

ou

- Não serve.