segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Referendo (2)

Este é um tímido princípio (tardio) para um longo processo. O maior desafio, a partir de agora, será passar da law in the books para a law in action, o que, sabemos, é sempre o mais difícil. Ou seja, coadunar as práticas dos profissionais e instituições envolvidos com a aplicação correcta da lei. Porque Portugal tem um quadro constitucional e legislativo muito avançado, claro. Quanto às práticas, aí, é que a porca torce o rabo. Mas é bem certo que, a partir de hoje, "vai haver menos medo". E isso já faz toda a diferença. Finalmente.

Referendo (1)




(Janeiro e Fevereiro de 2007)

(Para um dia mostrar aos netos dos meus amigos.)

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2007

Paliativos de Austen


Não é o Dr. House, é Mr. Palmer.

E há alturas, estou convicta, em que o único remédio é mesmo o regresso à velha Jane, e as reconfortantes heroínas de sempre e respectivas provações (não o cliché do Mr. Darcy, for heaven’s sake).

Convoquemos, pois, exércitos (bem preparados e aguerridos) de Mariannes Dashwoods e as duras lições aprendidas com os Wiloughbys deste mundo (“But not enough. Not enough.”). Chamemos a nós hostes de Eleanors, com tácticas militares de estóica perseverança perante os enredos mais caprichosos desta vida; armemo-nos de perspicácia irónica e wise wit de Elizas Bennetts para defrontarmos as Misses Bingleys e Lucys Steels do mundo. Ataquemos, beligerantes, com trincheiras de Annes Elliots e dos seus oito anos de persuadida separação de Cmte. Wentworth, e também, porque não?, do ânimo bem humorado (todo o exército precisa de levantar a moral) de Emmas Woodhouses, enredadas em danças e contradanças de pares amorosos.

Deveres cívicos

Na véspera de percorrer 500 Km, na carteira, lado a lado: bilhete de viagem e Cartão de Eleitor(a).
Esperemos que valha a pena, desta vez.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

As alíneas da derrota precoce

Entre os homens, padece-se de um mal: para além da outra coisa precoce, há também os derrotados precoces. São os que desistem à partida, antes de entrarem sequer na corrida.
Um amigo explicou-nos o porquê dos homens, hoje em dia, não abordarem com facilidade uma mulher bonita:
a) porque imaginam de imediato que já estará comprometida;
b) porque fantasiam hordas de admiradores, logo, a ferocidade da competição inter pares (eventualmente muito desigual à partida);
c) porque não acreditam que estão à sua altura e que a rejeição será o desfecho mais provável.
Em suma, a cobardia-sangue-aguado no seu melhor.

Sinal invertido (ou: da perenidade dos clássicos infantis)

Eis a ironia cruel da coisa. A adolescente solitária, porque tímida e magricela, transforma-se na jovem bela e elegante e, pior ainda, segura de si e de natureza indómita. O clássico patinho feio, como nos contos de fadas, dá lugar ao cisne de beleza intimidante para o sexo oposto e incómoda para o mesmo sexo. Ou seja, para situações extremas, a mesma inevitável solidão, porque refém das suas próprias virtudes externas, porque isolada na velha torre inalcançável. Como nos contos de fadas. Como se se mantivesse a mesma equação, mas invertendo o sinal.

Sobrevalorização II

Tão mais perigosa porque dá lugar à obsessão, que se transforma em idolatria, e a idolatria em tirania e fundamentalismo (estéticos). Toda a gente sabe que os feios são os estetas mais implacáveis.

Sobrevalorização I

Vejo homens (quase patologicamente) preocupados com os padrões convencionais de beleza exterior, tanto feminina como masculina. Como se dela dependesse (ou fosse factor determinante) o sucesso ou fracasso das relações. Não sei que obsessão é esta dos feios com o suplício ambivalente dos outros.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

Maiko*

Tradição milenar e revolução tecnológica, lado a lado, passo a passo numa ruela de Kioto.
De um blog belíssimo, onde há muito Japão para todos os gostos. Ainda bem.

* Uma aprendiz de gueisha, creio.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007


One of these days these boots are gonna walk all over you

These Boots Are Made For Walkin'


Já assim cantava Nancy Sinatra, em Fevereiro, mas de 1966.

You keep saying you got something for me
Something you call love but confess
You've been a'messin' where you shouldn't 've been a'messin'
And now someone else is getting all your best
Well, these boots are made for walking,
and that's just what they'll do
One of these days these boots are gonna walk all over you

You keep lyin' when you oughta be truthin'
You keep losing when you oughta not bet
You keep samin' when you oughta be a'changin'
What's right is right but you ain't been right yet
These boots are made for walking, and that's just what they'll do
One of these days these boots are gonna walk all over you


You keep playing where you shouldn't be playing
And you keep thinking that you'll never get burnt (HAH)
Well, I've just found me a brand new box of matches (YEAH)
And what he knows you ain't had time to learn
These boots are made for walking, and that's just what they'll do
One of these days these boots are gonna walk all over you

Are you ready, boots?
Start walkin'

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2007

Presente(mente)

Seria tudo mais fácil se se pensasse num futuro com alguém sem passado.
Música alta, música boa, muita, muita gente, dança (a dos outros), rir, reencontrar caras há muito não vistas, conhecer caras novas, simpatia genuína com muitos, indiferença fria para os (raros) que a merecem, banhos em elogios, conversas sérias, conversas parvas, conversas seca, divertimento, alguma (pouquinha) solidão no meio da multidão, gozar com quem não reconhece músicas dos Beatles ou de Rage Against The Machine, muito calor.
Foi assim, na noite mais fria do ano.

One more time,


We're gonna celebrate.

(Estilos musicais muito discutíveis, mas que lembram coisas boas, e isso é que conta, in the matter of fact.)

Dos efeitos colaterais de um centenário de uma república

(ao telefone com uma amiga, na manhã seguinte) - Ai, estas coisas fazem tão mal. (em coro) Mas também fazem tão bem…
Um dia, quando eu estava em Cuba, houve um episódio. Quase todas as manhãs, muito cedo mesmo, eu sentava-me na varanda que dava para um jardim. Que, por sua vez, era perto de uma paragem de autocarros, onde todas as manhãs vi pessoas deslocarem-se para os seus trabalhos ou para a escola. Eu sentava-me na varanda, de manhã, como gosto de fazer nos trópicos: para sentir o ar quente e os sons exóticos que chegam até mim, misteriosos como segredos. As pessoas, ao alcance do meu olhar, ao longe, esperavam de pé as camionetas que as levariam para mais um dia de trabalho. Uma dessas manhãs, eu estava quase a voltar para dentro do quarto, ouvi um assobio. Vinha de baixo, do homem que estava a tratar do jardim. Chamou-me, fiz que não ouvi, fui para dentro. Houve uma segunda e última vez. E nunca um gesto me tinha feito sentir tão cobarde, com vergonha do meu pudor perante a pobreza, a privação, como se fosse melhor voltar o rosto e fingir que não existiam. Vergonha, da minha própria falta de coragem, perante aquela pessoa que trabalhava – as mãos calejadas, o rosto escuro curtido do sol, um chapéu – que eu pensava que me ia fazer os comoventes pedidos do costume (canetas para os filhos, e outros objectos básicos para os padrões europeus). Da segunda vez, chamou-me de forma mais insistente, não consegui ignorar. De baixo, não vieram pedidos nem lamentos pela vida dura. De baixo, atirou-me apenas uma flor do (seu) jardim.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2007

Silêncio, o espectáculo vai começar

Silenciosa, decidiu abdicar da sua carreira como protagonista da trama. A partir daquele momento, assistia às vicissitudes da vida apenas como atenta espectadora. Mas do alto do camarote real.

A ver passar navios

Na busca de uma certa identificação, procuramos estar com quem melhor se ajusta ao nosso presente estado de alma, e não quem nos atire à cara uma alegria jocosa. Ou ler quem melhor escreveu sobre sentimentos consonantes. Na blogosfera passa-se o mesmo. E, assim que a escrita do outro começa a revelar sinais de "recuperação", não há motivos para preocupação. Há sempre outro alguém que, nesse novo momento de partida, está a começar ou a continuar um mesmo "desalento", uma mesma melancolia.

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007