quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Diabetes

Não gosto do jeito dos brasileiros. (So what? Shoot me.) Não gosto. O discurso deles, as ruidosas manifestações de júbilo, esta mania de abraçar logo os desconhecidos, o exagero táctil.
Não gosto.
É mel a mais, açúcar a mais, doce a mais.
É enjoativo demais.

A gente não lê (2)

Tudo o que está no post abaixo é muito bonito. Mas, depois, quando estou no campo, e vejo uma lagartixa ou um besouro, morro.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A gente não lê

Sol quente e poeirento em Verões de dias intermináveis. Casas caiadas, gentes. Sortelha, Belmonte. Música tradicional. Uma linha de comboio. Linhares da Beira. A melhor gastronomia do mundo, do menos saudável e mais delicisosa que possa no mundo haver. Terras de Bouro. Pão e azeitonas sobre linho branco. Hospitalidade. Mirandela. Franqueza, modos rústicos, simplicidade. Acordeãos. Olhos castanhos risonhos. Castro Daire. Procissões, feiras, searas e oliveiras. Os campos, muito quietos. Broa, queijo, vinho e morcela. Ponte de Lima. Pequenas fragas. O toque dos sinos, lá em baixo. Abraços. Muito genuínos, tão nossos. Qualquer coisa de apaziguante. As melhores recordações. É saloio. pois é. Mas isto sim, é o que de melhor Portugal tem.

Agita-se a solidão cá no fundo, Fica-se sentado à soleira, A ouvir os ruídos do Mundo E entendê-los à nossa maneira.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

E o prémio para marido mais pragmático vai para...

Eu tenho amigos queridíssimos, de longa (longuíssima) data, cujo pragmatismo é tão lendário quanto cómico. Um deles ofereceu, como presente de aniversário, à sua excelsa esposa... minha gente, um par de pneus sobresselentes para o carro. Vejam como isto é de uma utilidade providencial e estamos na presença de um marido extremoso.

Portanto, não lhe ofereceu um perfume, nem lingerie, nem um fim de semana romântico numa pousada romântica. Não. Pneus, sim senhora. Coisa útil e, nestes tempos árduos, muito preciosa.

Melhor que este meu amigo, só outro amigo meu que, antes ainda de pedir a mão à sua futura mulher, comprou as alianças porque estavam em saldos. Sim senhora, em saldos, porque a vida está cara. Se a noiva tinha alguma preferência sobre o anel que vai usar toda a vida? Ná! Se tinha alguma palavra a dizer na ourivesaria? Ná!

O que é que concluimos daqui? Que há maridos espectaculares. E que está bem visto que eu se me casasse (lagarto, lagarto) teria de ser fora do meu círculo de amigos. Porque isto é contagioso, pois claro.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Gerontofilia

Soube que uma antiga colega de faculdade se casou com um homem de sessenta anos. É, portanto, mais velho que os pais dela. E consta que tem um bigodinho branco e tudo.

Não tenho nada contra os padrões etários (nem estéticos) da conjugalidade. Só acho é que há coisas que não deveriam chegar até nós sem uma anestesia.

Balzaquianas (35)

Milla Jovovich (n. 1975)

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Penso, meu caro Eça, que, hoje em dia, será talvez o contrário

"O amor espiritualiza o homem e materializa a mulher."

Eça de Queiroz, "José Matias".

Fifties (6)

Louis Vuitton, colecção Outono/Inverno 2010/2011
Diabos me levem se, um dia destes, não tenho um vestido ao estilo deste da Christy Turlington (em primeiro plano, à direita, para que não haja dúvidas se alguém me quiser oferecer um).

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Victoria´s Secret e moral kantiana: uma parceria improvável

"A inteligência dos fleumáticos triunfa na sistematização e Kant oferece um exemplo típico desta lei. Notavelmente dotado para a crítica, possui os defeitos das suas qualidades: uma certa rigidez e uma falta de maleabilidade intelectual."
(Raymond Vancourt, in Kant, Edições 70).

Eu nutro uma certa ternura por Immanuel Kant, já o manifestei aqui várias vezes. A influência do pietismo, os rígidos princípios morais, a filosofia transcendentalista. É bonito. Superarmo-nos através do transcendentalismo, libertarmo-nos da irremediável tangibilidade física e atingirmos a perfeição, pura, ideal. Isto é lindo, lindo.

E também é comovente. Até porque há muito mais kantianos do que seria de esperar, e que, sem o saberem, são-no até às últimas consequências. Nem os inquestionáveis padrões estéticos da Victoria's Secret os demovem. Nem corpetes, nem aplicações de borboletas, nem asas, nem nada, meus amigos. Parece impossível, mas é verdade.

Kantianos. Rígidos em tudo, menos no que seria desejável.

Há mar e mar

Esta maravilhosa música ondulante passava como música de fundo numa daquelas campanhas de prevenção do Instituto de Socorros a Náufragos, num dos Verões escaldantes dos anos 90 (ou era 80?).

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Areia

"Sim, querida Lotte, irei resolver o assunto e ocupar-me-ei de tudo. E, sobretudo, encarregue-me de mais coisas... e com muita frequência. Só peço uma coisa: que não deite mais areia nos bilhetes que me escreve. Hoje, levei o bilhete rapidamente aos lábios e ainda tenho areia nos dentes."
Goethe ("Werther")

Como podemos ver, até mesmo um coração cheio do mais exacerbado romantismo (e nisto, o pobre Werther bate qualquer recorde passado, presente ou futuro, coitado) se vê confrontado com as pequenas minudências da matéria.

O passeio das virtudes

Mais cedo ou mais tarde, lá chega o fatídico dia em que (aquilo que deveriam ser) as nossas maiores qualidades se viram contra nós.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Sugar daddy

Há lá coisa mais sexy que um homem bonito com o seu filho pequeno ao colo.

Fio dental


Que me desculpem os/as adeptos/as, mas não há nenhum argumento no mundo que me faça pensar de outra forma, e não há ninguém que me convença que isto não é um tipo de vestuário desconfortável e até pouco higiénico. Seja em bikinis seja em roupa interior. E aos homens que me venham com a história de que é sexy e não sei quê, eu desafio sempre a me responderem quantos deles é que apreciam ter coisas enfiadas no rabo.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Apostar na prevenção

Vivien Leigh, em Anna Karenina

Tenho andado com más companhias, nos últimos anos.
Desde Emma Bovary, na adolescência, passando por Connie (Lady
Chatterley, para os amigos) no tempo da faculdade, de Kitty Fane (a de
Maugham, não a do blog) a Anna Karenina, já em jovem adulta.
Muito más companhias. Todas elas maridos desesperantes, todas elas traições, todas elas
casamentos disfuncionais, enfim, todas elas adúlteras.
Mas são algumas das minhas heroínas literárias preferidas, I can't help it.
Isto deve ter algum sentido. Só espero é que não seja uma premonição.
Mas, homens deste mundo, meus potenciais consortes, podeis respirar de alívio, nenhuma excrecência vos brotará da testa.
Porque, pelo sim, pelo não, não me caso.

Testosterona de luxo #21


Hrithik Roshan
(Para começar o ano a ver coisas belas.)

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Estamos quase na Primavera


O Inverno, se formos rigorosos, ainda agora chegou, e eu já estou a pensar nos vestidos de Verão. Nunca é cedo demais. Deixo aqui dois apontamentos que muito me deixam ditosa (com a feliz perspectiva de adquirir -- ou talvez mesmo comprar -- brevemente um deles, ou quem sabe ambos), para começar 2011 envolta em primaveril glamour .

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Deitar fora o bebé com a água do banho



O género telenovela é um produto de entretenimento muito ingrato, porque é menosprezado e subvalorizado. Talvez seja por serem obras de longo fôlego, por durarem muito tempo e desgastarem a imagem dos actores, por os exporem durante meses a fio, talvez pelo seu ritmo frenético e se sujeitarem à tirania das audiências ou simplesmente pela mediocridade de alguns enredos. De qualquer forma, entre os culebrones latino-americamos, as coisas medonhas da TVI e as novelas da Globo, venham estas últimas. São, sem dúvida, as que têm mais qualidade, tanto em termos técnicos como artísticos.

Mas, no meio disto tudo, quando se fala de novelas caímos no erro de deitar fora o bebé com a água do banho (expressão inglesa muito do meu agrado: throw out the baby with the bath water). Ou seja, acabamos por nem dar o devido valor à enorme qualidade de certas interpretações: é o caso da actriz brasileira Cássia Kiss, na novela Paraíso, que passou recentemente. É que ela é de uma fidelidade à figura que pretende caricaturar (a beata do interior do Brasil, de há trinta anos atrás) e absorve de tal forma o seu papel, que chega a ser assustador. Chamo a isto porosidade representativa. O exagero emocional, os gestos, os tiques e as expressões, ora trágicas ora rocambolescas, fazem da personagem "Dona Mariana" uma das melhores coisas que já vi em termos de representação. E isto não é coisa para se ignorar.

Skimming

Ou se nasce com a sorte de termos determinadas coisas ou situações, ou não. Não há mecanismos compensatórios que nos valham, sejam eles quais forem, ao longo da vida. Temos é de aprender a viver com isso.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Um ar de Newport ou Martha's Vineyard




The Social Network (2010), de David Fincher. A cena da regata (que também está muito boa).


Digo já que não gostei especialmente de A Rede Social, deixou-me vagamente incomodada perante tanta superficialidade e amoralidade em gente tão nova. Mas os heróis do século XXI são assim, pronto.

Mas como gosto muito de detalhes, recupero hoje aquela que eu considero a melhor cena do filme: os gémeos Winkelvoss saem do gabinete do director de Harvard, furiosos porque viram as suas queixinhas frustradas, e um deles ao fechar a porta fica com a maçaneta na mão. Depois, atira-a com elegância e desdém para a mesa de uma funcionária, e diz qualquer coisa como: "aqui está uma maçaneta de porta com quatrocentos anos de História".

O jovem actor Armie Hammer está perfeito, perfeitíssimo, ao encarnar esse sub-produto da upper-class norte-americana, e ainda por cima em duplicado: duas pessoas directamente saídas do elitismo afectado da estância de veraneio de Newport ou daquela aura indefinível de férias em Martha's Vineyard.
Tudo está condensado ali, desde o irrepreensível porte aristocrático, à postura saudável e atlética e tiques de superioridade snob: parece que saltaram de repente de dentro das páginas de um romance de Edith Warthon.